- alerta investigador London School of Hygiene and Tropical Medicine e do Lancet Countdown Africa, Prof. Tafadzwanashe Mabhaudhi
Os impactos das alterações climáticas na saúde já se fazem sentir no continente africano, contribuindo para o aumento de doenças, mortes e deslocações populacionais, alertou o investigador e professor de Alterações Climáticas, Sistemas Alimentares e Saúde na London School of Hygiene and Tropical Medicine e director do Lancet Countdown Africa, Prof. Tafadzwanashe Mabhaudhi, durante a Palestra Principal da 3.ª Conferência sobre o Impacto das Mudanças Climáticas na Saúde, que decorre de hoje até amanhã na cidade de Maputo.
Na sua apresentação, o investigador destacou os riscos crescentes associados aos fenómenos climáticos extremos, como o calor intenso e a seca, bem como os efeitos das alterações climáticas na transmissão de doenças, nos sistemas alimentares e na capacidade de resposta dos sistemas de saúde.
Entre os dados apresentados, destaca-se o aumento de 23 por cento da mortalidade associada ao calor intenso desde a década de 1990, bem como uma estimativa de 546 mil mortes anuais relacionadas com o calor, no período entre 2012 e 2021. A apresentação indicou ainda um aumento de 49 por cento no potencial de transmissão da dengue, associado às condições climáticas.
Em África, a seca constitui um desafio cada vez mais significativo. Os dados apresentados mostram que, entre 2013 e 2022, cerca de 64 por cento da superfície terrestre do continente registou, em média, pelo menos um mês de seca extrema por ano, em comparação com 9 por cento no período entre 1951 e 1960.
Moçambique entre os países expostos aos riscos climáticos

A apresentação do Prof. Tafadzwanashe Mabhaudhi destacou, igualmente, a exposição de Moçambique a estes fenómenos. Entre 2021 e 2025, uma média de 45,7% da superfície terrestre do país registou pelo menos um mês de seca extrema por ano, em comparação com 14,7 por cento no período entre 1981 e 1990.
Durante o mesmo período, segundo o investigador, a população moçambicana esteve exposta, em média, a 10,3 dias de ondas de calor por ano. De acordo com os dados apresentados, cerca de 90 por cento desses dias não seriam esperados na ausência da influência das alterações climáticas.
Estes fenómenos representam desafios significativos para a saúde pública, exigindo o reforço das capacidades de prevenção, preparação e resposta, sobretudo devido à pressão adicional que exercem sobre os serviços de saúde e ao aumento dos riscos para as populações vulneráveis.
Da evidência científica à acção
O investigador abordou também o trabalho dos cinco grupos temáticos de investigação do Lancet Countdown, uma iniciativa internacional que monitoriza a relação entre as alterações climáticas e a saúde. Estas áreas abrangem os impactos das alterações climáticas na saúde, a adaptação dos sistemas de saúde, os benefícios das medidas de mitigação para a saúde, os impactos económicos e as transições, bem como os contextos públicos e políticos.
Tafadzwanashe sublinhou que a produção de evidências científicas, por si só, não é suficiente. O conhecimento deve traduzir-se em decisões orçamentais, políticas públicas e serviços concretos que protejam a saúde da população.
Entre as principais prioridades, destacam-se a integração dos riscos climáticos nos orçamentos e planos de saúde, a utilização eficaz dos instrumentos de planificação existentes e o reforço da prestação de serviços, de modo a garantir que as medidas adoptadas cheguem às comunidades.
Apesar dos desafios, o investigador salientou que a acção climática pode gerar benefícios tanto para a saúde como para a economia. A melhoria da qualidade do ar, a garantia de acesso à água segura e a alimentos adequados, bem como o reforço da resiliência das unidades sanitárias face às alterações climáticas, são exemplos de medidas que contribuem simultaneamente para a adaptação climática e a protecção da saúde pública.

A palestra decorreu no âmbito da 3.ª Conferência sobre o Impacto das Mudanças Climáticas na Saúde, que reúne especialistas e outros intervenientes para debater evidências científicas, políticas e estratégias destinadas a responder aos efeitos das alterações climáticas na saúde. A mesma foi moderada por Revati Phalkey, directora Universidade das Nações Unidas da (UNU) Global Health.

